O Modelo Biodinâmico da Osteopatia Craniana (parte 1) – John M. McPartland

O Modelo Biodinâmico da Osteopatia Craniana

John M. McPartland, DO, MSc e Evelyn Skinner, DO, BA

O Tao que pode ser completamente explicado não é o Tao em si”

Lao Tzu, Tao Te Ching

Introdução

 

Este capítulo trata do que permeia a filosofia do modelo Biodinâmico de Osteopatia Craniana. Para fazer isso, empregamos a dialética Hegeliana, os princípios da trama da Osteopatia Craniana Biodinâmica (OCB) apresentados num contexto histórico.

Vamos comparar a Biomecânica OC com a Biodinâmica OC, ou hemisfério esquerdo cerebral versus hemisfério direito cerebral, como Fred Mitchel gosta de brincar. Não serão descritos aqui métodos. Note que nesse artigo certas palavras serão usadas em maiúsculas, indicando o uso da definição OCB, não no sentido usual do dicionário.

O legado de OCB reporta a Hipocrates, como reflexo do axioma do juramento hipocrático “não faça mal” e isso se refere à nossa integridade de corpo-mente-espírito. Tratados do empirismo de Paracelsus e do experimentalismo de Avicennian “colorem a tapeçaria” da osteopatia biodinâmica no campo cranial (OCB). O fundamento da OCB, no entanto, é firmemente baseado na filosofia e prática de três médicos professores em osteopatia, e desenvolvido a partir dessas práticas, através dos princípios de auto equilíbrio, autocura, presentes em seus pacientes.

O primeiro desses médicos professores é Andrew Taylor Still (1828-1917), fundador da osteopatia em 1874. Dr. Still buscou a “Saúde” nos seus pacientes, a qual esteve sempre presente, não importa o quanto doente seus pacientes estivessem. Este conceito foi fundamental para que a entrega de Still acessasse a cura. “Eu amo meus pacientes”, ele declarou, “eu vejo Deus em suas faces e formas” (Still 1908). A tarefa do médico, Still sempre lembrava seus alunos, é remover com gentileza todas as obstruções mecânicas observadas, para um livre rio flutuante da vida(sangue, linfas e liquido cerebroespinhal). A natureza fará o resto. Still formulou novos conceitos em relação ao crânio, aos nervos cranianos e proclamou “ o liquido cérebro espinhal é o principal elemento conhecido que está contido no corpo humano” (Stil 1899). Suas técnicas de tratamento incluíam leves pressões nos ossos cranianos, por exemplo no tratamento do pterydium(Still 1910).

O segundo médico professor é William Garner Sutherland (1873-1954), fundador da Osteopatia no Campo Cranial (OCC). Dr. Sutherland foi aluno de Still e se tornou imbuído com os pensamentos, métodos e praticas de Still. Sutherland formulou sua primeira hipótese cranial ainda quando estudante em 1899 enquanto examinava o osso temporal a partir do crânio desarticulado. O pensamento que lhe ocorreu foi que as beiras do temporal eram chanfradas como as guelras de um peixe, como parte do sistema respiratório. A revelação de Sutherland em 1899 iniciou uma longa evolução do pensamento, descrito ao longo desse capitulo.

O terceiro médico é James S. Jealous (1943-) cujo Modelo Biodinâmico de Osteopatia no Campo Cranial (OCB) atraiu grande interesse e controvérsias na profissão. Jealous adaptou o termo Biodinâmico através de seus estudos com o embriologista alemão Erich Blechschmidt, e não a partir do filósofo suíço Rudolf Steiner, embora os conceitos biodinâmicos de Steiner tenham ressonância com os princípios de OCB. Por mais de 30 anos Dr. Jealous compilou histórias orais dos estudantes de Sutherland, e ele continua a pesquisar os escritos de Sutherland (os publicados e os não publicados). Esse trabalho com “os mais velhos” possibilitou a Jealous compilar uma cronologia autorizada da jornada de Sutherland. Assim, OCB dedica-se à odisséia perceptual onde Sutherland a deixou no final de sua vida.

Metáfora e arquétipo: os encarregados das chaves

Still (1902) escreveu, “…que vida e matéria podem ser unidos, e que a união não pode continuar com qualquer obstáculo para o livre e absoluto movimento.” Os conceitos de Still, desde o começo, estiverem sempre além das capacidades das provas (ensaios) cegas. O que Still viu e compreendeu, e Sutherland refinou nos seus últimos escritos, foi o principio universal de que o mundo natural está constantemente mudando, e o que é fixo (ou sem movimento) torna-se fora do equilíbrio com seu ambiente. Still considerou a osteopatia uma ciência, mas quando a osteopatia se estendeu além das explanações da ciência conhecida e racional, ele comunicou suas aulas usando linguagem metafórica. A metáfora usa informação familiar para descrever uma idéia não familiar. Metáfora promove uma ponte verbal para preencher o espaço entre a intenção dos palestrantes e a interpretação dos ouvintes(Artaud 1938). Esse espaço transformacional, metaforicamente falando, caracteriza o espaço de aprendizado entre professor e aluno, no teatro, o espaço entre ator e audiência, e o espaço da cura entre praticante e paciente, onde num certo momento há uma troca de algo maior que a soma das partes envolvidas.

Metáfora, apesar de ser inerentemente não racional, tem promovido há muito tempo ferramentas heurísticas para aproximar problemas científicos (Chew & Laubichler 2003). A cultura ocidental, no entanto, tem dificuldades de captar pensamentos não racionais. Os não racionais aspectos da osteopatia (e outros sistemas médicos alternativos) são os aprendizados mais difíceis de comunicar e as tradições mais difíceis de manter. As verdades sobre o homem trimembrado onde se apóia a osteopatia de Still, tornaram-se vitimas do reducionismo medico, causados pelo modo ocidental de enfatizar o intelecto e desprezar o intuitivo e instintivo. O reducionismo limita nossa realidade e nossa consciência. Formas alternativas de consciência, expressas por sonhos, poesia, musica, pintura ou estados de transe, têm permanecido em não desenvolvimento na nossa sociedade. Limitar nosso conhecimento sobre o que pode ser provado num experimento reducionista tem acontecido consistentemente na exclusão do espírito humano no modelo usado pela medicina ocidental.

Esta lacuna espiritual tem sido o assunto dos praticantes de OCB , os quais ganharam insight e inspiração de Laurens van der Post (1962), “ a consciência humana desde a Reforma tem sido tão estreita que ela se tornou quase inteiramente um processo racional, um processo intelectual associado com o externo, o tão chamado físico, mundo objetivo. As realidades invisíveis são não mais reais. Esse conhecimento estreito rejeita toda sorte de coisas que constitui a totalidade do espírito humano: intuição, instintos e sentimentos, todas as coisas a que o homem natural tinha acesso.” Os conceitos antropológicos de Van der Post tiveram um importante papel no nosso entendimento da saúde e doença na sociedade.

Still adquiriu sem dúvida a capacidade de se comunicar com uma linguagem simbólica através de seu pai, um Ministro Metodista. Sutherland, como Still, foi um ourives das palavras, tendo trabalhado como editor de um jornal antes de ser um osteopata. A linguagem dos dois reflete a intimidade que tinham com a conexão com o mundo natural. Still amadureceu entre Shawnee e outras culturas dos índios americanos. “Entre culturas indígenais, orais, a natureza ela mesma é articulada; ela fala…não há elemento da paisagem que é definitivamente vazio da expressiva ressonância e poder…”(Abram 1996). Abram cita um índio curador americano, cujas palavras ressoam com os escritos do Dr. Still, “ no ato da perfeição eu entro na relação de empatia com o percebido, o que é possível apenas porque nem meu corpo, nem a sensibilidade existem fora do fluxo do tempo, e então cada um tem seu próprio dinamismo, sua própria pulsação e estilo. Percepção, nesse sentido, é uma sincronização entre meus próprios ritmos e os ritmos das coisas, seus próprios tons e texturas.”

A paisagem de Still foi povoada por indivíduos que viam coisas de uma perspectiva cultural totalmente diferente. Highwater (1981) escreveu, “enquanto as sociedades dominantes geralmente presumem que suas visões representam a única verdade sobre o mundo, cada sociedade (e geralmente indivíduos da mesma sociedade) vê a realidade de maneira única.” As perspectivas culturais de Still e Sutherland forma revividas pelos praticantes de OCB. OCB inicialmente desenvolveu-se na Nova Inglaterra, um lugar imbuído do espírito de Ralph Emerson e Henry Thoreau. No século XIX os filósofos da Nova Inglaterra acreditavam que o estudo da natureza, ou estarem no mundo natural, oferecia um clareamento da mente e espírito, e realçava a jornada do auto-descobrimento.

Na época da primeira publicação dos insights de Sutherland (1939), a osteopatia passava por um momento de reducionismo. Grande parte de praticantes focavam aspectos mecânicos dos princípios e práticas osteopatas. A Osteopatia Craniana de Sutherland representou o renascimento da osteopatia de Still. Mas na época da morte de Sutherland em 1954, o ressurgimento da Osteopatia Craniana entrou num período de reformulações, a recuperação do racional. A reformulação de Osteopatia Craniana e seus textos básicos (Magoum 1976, Upledger & Vredevoogd 1983) têm sido abraçados por vários osteopatas assim como massoterapeutas, fisioterapeutas e quiropatas. Mas o original ressurgimento de Sutherland prosseguiu, sob a égide dos estudantes de osteopatia, incluindo Paul Kimberly, Anne Wales, Ruby Day, Rollin Becker e Robert Fulford (Cardy 2004).

Assim como a Osteopatia Craniana foi conduzida à OCB, o uso de metáfora foi conduzido para o uso de arquétipo. Enquanto uma metáfora é uma figura de linguagem usada para sugerir alguma semelhança, um arquétipo é um termo usado para descrever um símbolo universal, que evoca respostas profundas e ás vezes inconscientes no leitor ou ouvinte. Arquétipos simbolicamente personificam experiências humanas básicas e seus significados são instintivamente e intuitivamente entendidos. O conceito de Jealous de embrião como sempre presente no organismo vivo é a chave do arquétipo OCB. Quando se estuda os escritos de embriologia de Blechscmidt , Jealous ficou impressionado pelas conclusões de Blechscmidt de que a função embriônica (movimento fluídico) cria forma e precede a estrutura. Jealous (2001) intuiu pelos relatórios de Blechscmidt de que o embriologista devia ter testemunhado as forças organizacionais da respiração primaria em atuação, sem confirmação palpatória, dada a reverência com o que Blechscmidt & Gasser (1978) escreveu, “a originalidade do embrião humano é discernível em vários aspectos; por exemplo, o inicio do conceptus humano é o mestre de toda a geometria que ele se aplica. Nunca está errado sobre qualquer soma de ângulos e nunca está enganado em qualquer quantidade de volume. Ele nunca coloca um ponto de intersecção no lugar errado e é mestre em toda reação física e química também.

O embrião, como arquétipo de uma forma perfeita, é como um programa das habilidades do nosso corpo em se auto curar. As forças fluidas formativas, de reabsorção e regenerativas que organizam o desenvolvimento embriológico estão presentes através de toda a vida, prontas para nossa cooperação em explorar sua potência terapêutica. Em outras palavras, as forças da embriogenesis se tornam as forças de cura após o nascimento.

Entre os praticantes de OCB, cada evento na área terapêutica tem um nome. Nada se refere vagamente ao termo “energia”. A importância de nomear é partilhada pelas culturas ao redor do mundo, notadamente por Bushmen do Kalahari (Van der Post 1961). De acordo com Bushmen , a separação de um individuo da parte dele mesmo que é conectada a “tudo mais” conduz ao medo e ao senso de solidão, o que facilita o processo da doença. Pelo fato do tratamento que usa OCB conectar a natureza do paciente, este recebe uma imediata experiência de “não solidão” ou “pertencimento” no profundo sentido. Os pacientes ganham o sentido físico de “comunidade”, possivelmente pela primeira vez em suas vidas. Como Wendell Berrry (1996) enfatizou, “a comunidade é a menor unidade da saúde”.

Nas próximas três sessões desse artigo, nós revisaremos a evolução do pensamento, a evolução das capacidades perceptuais e a evolução das abordagens de tratamento da OCC e OCB– dos Ossos à Dura ao Fluido Cerebroespinhal ao Corpo Fluídico.

Cronologia da evolução de OCC e OCB

1910-1920 Sutherland estuda os ossos craniais e suas suturas e forame
No começo dos anos 30 Sutherland começa experimentos com a dura mater e suas desmembrações internas (foice, tentório)
No fim dos anos 30 Sutherland muda seu foco para a flutuação do fluido cerebroespinhal e elucida o mecanismo da Respiração Primária
1943 Sutherland descreve o Sopro da Vida
1948 Sutherland começa seu trabalho com a potencia das marés
1951 Sutherland interrompe os testes de movimento, todos os fulcros ocorrem em still point
Nos anos 60 Os escritos de Sutherland são publicados e depois editados por Ada Sutherland e Anne Wales
Nos anos 70 Os estudantes de Sutherland, Rollin Becker e Robert Fulford expandem seus trabalhos de 1943
Nos anos 80 Bar Harbor: num encontro de osteopatas na Inglaterra e Nova Inglaterra, James Jealous associa os insights de Sutherland aos trabalhos de Blechschmidt e van der Post

Evolução do pensamento

Ossos”

Desde seu tempo de estudante ao final dos anos 1920, Sutherland concentrou-se nos ossos cranianos, suas suturas e forame. Sutherland propôs que as suturas cranianos permanecem móveis durante toda a vida de uma pessoa. Seus insights através das mãos predisseram o que é agora conhecido através dos estudos histológicos – que a maioria das suturas nunca se ossificam completamente (Retzlaff & Mitchell 1987). As suturas vivas contém tecido conjuntivo, vasos de sangue e nervos. Elas mantém uma função articular e servem como meio de informação do movimento metabólico e somático. As observações dedutivas de Sutherland foram confirmadas por uma completa pesquisa por sua contemporânea osteopata Charlotte Weaver. Ela conduziu dissecções fetais que a levaram a olhar os ossos do crânio como vértebras modificadas.(Weaver 1936a, 1936b). A sinfise esfenobasilar é embriologicamente semelhante a um disco intervertebral, é plástico e capaz de movimento (Weaver 1938). Weaver provou que os insights de Goethe em 1970 eram verdade, que as ossos do crânio são vértebras metamorfoseadas (Rohen 2002).

Dura Mater”

No começo dos anos 30, Sutherland mudou sua ênfase para a dura mater e sua divisão bilaminar em forma de foice e tentório, conhecidas como membranas de tensão recíproca, as quais equilibram o movimento dentro do crânio. Sutherland acessou a dura mater través de leves pressões no crânio. O periósteo externo (ilustrado pela tradutora) é contiguo com a dura mater interna. Sutherland visualizou uma contínua membrana interdigital do tecido conjuntivo desde o crânio até o sacro, a qual ele caracterizou como uma forma de girino “o elo central” .]

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